Não muito animador o comentário de Boris Goger, que trabalha com desenvolvimento de software em Munique, a respeito da sua visita a uma Universidade brasileira (tradução minha):
August 17th, 2009
Semana passada visitei a UFRPE – Universidade Federal Rural de Pernambuco, em Recife. Um lugar incrível. É possível sentir a energia do lugar e entender imediatamente que as pessoas nessa universidade realmente querem estudar.
Mas por outro lado, eu também fiquei chocado. O ambiente é ruim. Os prédios não parecem com uma universidade, e os computadores que se vê nos laboratórios são super antigos. Mas… obviamente isso não faz as pessoas deixarem de estar felizes por estudar. Se você visse aquilo, você não iria nunca pensar que não tem condições de estudo boas o suficiente na Alemanha. Legal!
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(Foto: ViaMoi)
No Brasil, ainda pequena, eu ouvia com frequência os adultos mencionarem a estória do pato, que “anda, nada e voa, porém anda mal, nada mal e voa mal”, enquanto que outros bichos fazem muito bem a sua especialidade: o tigre corre, a águia voa, o peixe nada.
Nos Estados Unidos, a expressão “a jack of all trades but master of none” é usada para identificar pessoas (ou empresas) que tentam ser tudo para todos, e acabam não se destacando em nenhuma área. No ramo do desenvolvimento de software, a especialização (individual e organizacional) é esperada. Dificilmente uma empresa de outsourcing que diga ser especializada em “desenvolvimento e manutenção de aplicativos customizados” vai impressionar um potencial cliente da mesma forma que uma que se apresenta como “especialista em desenvolvimento .NET”, ou “expert em aplicativos Java para desktop”, com dezenas de projetos realizados especificamente naquela tecnologia.
Isso se torna um problema para empresas de software brasileiras tentando entrar no mercado americano. É comum ver-se empresas com excelente capacidade técnica, experientes em desenvolvimento de aplicativos similares ao desejado por um potencial cliente, mas que pela ausência de uma imagem especializada, acabam não gerando o mesmo grau de confiança de uma empresa menos experiente, mas acostumada a vender serviços para um nicho específico de mercado.
O alto volume de negócios que ocorre mesmo em pequenos nichos torna muito mais fácil para empresas atuando no mercado americano especializar-se numa única área: desenvolvimento de portais financeiros, shopping carts, etc. Em países como o Brasil, é preciso diversificar o portfólio de produtos para se alcançar o mesmo volume de clientes, uma situação que traz vantagens e desvantagens:
- no lado positivo, uma empresa acostumada a lidar com diferentes mercados, problemas de negócio e tecnologias é muito mais capaz de se adaptar a novas realidades e de reaproveitar os conhecimentos adquiridos num tipo de projeto em outras iniciativas;
- no lado negativo, uma empresa sem uma especialidade claramente definida compete em desvantagem em ambientes em que existem “niche players” capazes de oferecer uma grande lista de projetos executados exatamente na mesma área que o cliente procura.
Empresas brasileiras de desenvolvimento de software, ao iniciar seu processo de globalização, precisam estar atentas a essas diferenças de percepção. A ausência de especialização, que no Brasil pode ser vista como um sinônimo de flexibilidade e de competência para atuar em diferentes áreas, corre o risco de ser entendida como falta de foco e de pessoal altamente treinado para resolver um problema específico de negócio.
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Software as a Service (SaaS) é um modelo de oferta de software na qual um provedor licencia uma aplicação para os clientes para uso como serviço sob demanda. A aplicação de software fica hospedada nos servidores do provedor (ou é transferida para um dispositivo de propriedade do consumidor), e permanece ativa até o contrato de uso expirar.
O número de empresas (principalmente start-ups) oferecendo software as a service cresce a cada dia. Eu recebo solicitações frequentes de pequenos negócios para testar seus aplicativos usando uma conta gratuita, na expectativa por parte do provedor que eu acabe gostando do produto (normalmente um aplicativo para gerenciar projetos ou requisitos de sistemas de informação) e o recomende para clientes ou para adoção pelas empresas de consultoria para as quais trabalho.
O grande problema com esse modelo são os riscos envolvidos. Os aplicativos são normalmente de boa qualidade, tendo se beneficiado do feedback de muitos usuários voluntários durante a fase de desenvolvimento, e alcançado um bom nível de qualidade da funcionalidade e usabilidade do produto. Mas a dificuldade começa quando se coloca as seguintes perguntas:
- Como ter certeza de que os dados estão seguros na mão de terceiros? Com um software instalado em servidores internos, a empresa tem total controle sobre backups e outros mecanismos de proteção da integridade, disponibilidade e sigilo da informação armazenada. Usando SaaS, o grau de controle é extremamente reduzido, e as vantagens que o aplicativo pode ter em termos de funcionalidade podem não compensar os riscos de exposição (e dependência externa) de dados críticos.
- O que acontece se o provedor de SaaS sair do mercado? O número de start-ups que não decolam depois de uma rodada inicial de investimentos é enorme. Se uma empresa resolve utilizar os serviços de um provedor e tem o serviço interrompido após um período, os prejuízos podem ser gigantescos. Mesmo que seja possível extrair uma cópia dos dados, trocar de provedor pode exigir um esforço substancial de migração, e causar o atraso de projetos que dependiam da ferramenta externa para sua continuidade.
Software as a service pode representar vantagens em termos de nível de serviço e de suporte em relação a soluções open source, mas para muitas empresas essas vantagens ainda não se mostraram suficientes para justificar a adoção do modelo SaaS.
O grande desafio das empresas apostando exclusivamente nesse modelo definitivamente não é provar que o software ofertado agrega valor ao negócio, mas sim que os benefícios do modelo no qual ele é vendido realmente superam os riscos.
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