Recentemente tive oportunidade de me envolver em projetos paralelos no Brasil e Estados Unidos, e a diferença na rapidez com que coisas acontecem não podia ser maior entre os dois países.
Abaixo, uma amostra dos acontecimentos, sem qualquer exagero ou distorção. Inicialmente, uma comparação entre a capacidade de planejar e estimar a disponibilidade da equipe do cliente para dar início aos trabalhos:
Brasil
Janeiro: Contatos iniciais com o cliente interessado em começar um projeto imediatamente.
Janeiro – Março: Negociação dos termos do contrato.
Maio: Assinatura do contrato pelo cliente. Execução e entrega dos resultados.
Estados Unidos
Outubro: Contatos iniciais com o cliente.
Outubro: Assinatura do contrato para início em janeiro, a pedido do cliente.
Janeiro: Execução do contrato e entrega dos resultados.
Comparem a capacidade de planejar da organização brasileira, que tinha interesse em que o trabalho fosse realizado imediatamente, e só conseguiu iniciá-lo meses depois, com a da empresa americana, que não só antecipou a assinatura do contrato para garantir espaço na minha agenda de consultora, como cumpriu à letra o combinado e colocou tempestivamente à minha disposição os recursos necessários para a execução do projeto dentro do planejado.
Esses não são exemplos isolados; eu tenho procurado evitar projetos no Brasil porque o problema se repete constantemente. É praticamente impossível criar um planejamento das minhas atividades de consultora porque os clientes 1) sempre querem tudo para ontem; 2) dificilmente estão em condições de realizar a sua parte para que o projeto aconteça no curto prazo desejado.
No que tange à velocidade com que se avança num objetivo, então, Brasil e Estados Unidos se encontram em pólos opostos. Eis aqui um exemplo do que acontece por aqui:
Há 2 semanas eu mudei de cidade. Uma semana depois, entrei em contato com o dono de uma pequena empresa de consultoria que havia conhecido via LinkedIn. No dia seguinte encontramos para conversar sobre meus interesses de trabalho. Nesse mesmo dia ele enviou mensagens para 4 executivos, presidentes de start-ups em diversas áreas de atuação. Todos marcaram reuniões para a mesma semana, resultando em duas propostas de consultoria e uma parceria de negócio.
É claro que esse tipo de velocidade só existe em empresas menores, com poucos níveis hierárquicos. Mas se as grandes empresas americanas têm um processo bem mais lento que as organizações de menor porte, a diferença de velocidade em que as coisas acontecem, comparando-se uma empresa americana e outra brasileira de mesmo porte, é algo extraordinário.
Na prática, isso significa que para uma empresa prestadora de serviços ou consultor que tenha a possibilidade de escolha, é muito mais vantajoso focar nos Estados Unidos. O nível de produtividade e eficiência alcançado com um cliente que é capaz de organizar-se e disponibilizar os recursos no momento certo reduz o número de horas a serem dedicadas aos projetos (antes e depois da contratação), aumentando significativamente a lucratividade do prestador do serviço.
Ao visitar o Brasil recentemente, fiquei surpresa ao ouvir muitos profissionais bem qualificados contando como estão trabalhando 10 ou mais horas por dia. Nos Estados Unidos é comum ver o mesmo tipo de profissional trabalhando de 9 às 5, com tempo de sobra para dedicar a hobbies e à família. E isso num país considerado de “workaholics”, que colocam o trabalho à frente de tudo, ao contrário dos brasileiros e europeus. Não é difícil concluir que a velocidade em que as coisas acontecem por aqui tem a ver com essa diferença: quanto menos tempo desperdiçado com idas e vindas, reuniões desnecessárias, descumprimento de prazos, etc., menos tempo é preciso permanecer no escritório para realizar o trabalho.

Concordo plenamente com suas colocações. As empresas brasileiras e os brasileiros são muito ineficazes. Reuniões tendem a durar horas, com devios, comentários e conversas paralelas. Dificilmente se entra em uma reunião no Brasil que tenha uma pauta definida e se sai com ações efetivas ou decisões tomadas. As decisões são sempre adiadas, as reuniões são para conversar, não para decidir. Em geral, sequer se sabe quais os parâmetros a serem utilizados na tomada de decisão, não se sabe o que se quer, quais os resultados a serem obtidos. Então fica difícil sair com algum resultado.
Nada melhor que as reuniões nos EUA que tem hora de início e hora de término. Em 1h ou se decide ou a linha cai, a sala de reunião tem que ser liberada, ou chegou-se às 17:00h e está na hora de ir embora. Existe um respeito pelo horário que aqui é impensável e a vida na empresa se estende, se estende e nada é feito.
Pois é, Rodrigo, é uma grande pena que essa situação continue a mesma, sem ganho nenhum para as organizações ou para a qualidade de vida das pessoas!
É difícil para muita gente que não tem uma experiência internacional, como a nossa, entender a diferença, que se reflete na eficiência, eficácia e efetividade de tudo o que se faz. Veja só o exemplo de um cliente acaba de me enviar por email:
“Ano passado eu fui para um evento em Belfast organizado por uma organização americana. Durou uma semana e até o terceiro dia eu cheguei atrasado em tudo. Tudo mesmo. Foi aí que caiu a ficha que as coisas realmente iriam começar na hora e que se você quiser chegar na hora, você tem que se preparar para chegar antes. Algo surreal aqui no Brasil.”
Adriana, um grande aspecto dessa divergencia entre precisao e direcionamento com que sao tratados os assuntos corporativos no Brasil e nos EUA eh cultural. As pessoas no Brasil, em geral, querem fazer negocios com “amigos”, a confianca vem do relacionamento entre as pessoas e a separacao entre o profissional e o pessoal eh bastante pequena. no Brasil eu era gerente relacionamento de um banco voltado para alta renda, mais da metade de meus clientes tinha um relacionamento de amizade alem do profissional. Minha esposa teve oportunidade de trabalhar junto ao consulado brasileiro em um projeto e as reunioes demoravam horas, com direito a cafezinho e bate papo no final. Os americanos ficavam se entreolhando, olhando para o relogio…
Mas isso nao eh exclusividade brasileira, o Frances tambem eh assim. Muita seriedade mas a cultura empresarial de la eh de medir duas vezes pra cortar uma so. Um projeto de 6 meses em media demora de 8 a 12 pra ser implementado. Pode ser que isso seja mais corrente na area financeira mas eh o que pude observar ate entao.
Otimo artigo, by the way.
Luiz, obrigada pelo elogio e pelas colocações muito pertinentes. É verdade, a situação descrita tem muito a ver com a ênfase que se coloca no relacionamento pessoal no Brasil (o que tem o seu lado bom, mas esse que é ruim).
E você tem razãp, pelo que eu ouço de amigos trabalhando ou que trabalharam na França, lá é tudo muito parecido com o Brasil. Eu já tive um cliente londrino e correu tudo muito bem, mas não tenho planos de arranjar clientes parisienses
.
Acho que tudo isto é devido a nossa cultura latino/católica versus a anglo-saxonica-ariana/protestante. O latino tem que trabalhar muito e o trabalho tem que ser sofrido. O latino gosta de dizer que trabalha dez, doze horas por dia. Tem que mostrar que sofre. O anglo-saxão-ariano tem no trabalho sua fonte de realização profissional e de sustento. Não tem que ser sofrido.
Trabalhei 3 anos na Holanda e a organização era semelhante a americana em termos de horário e planejamento. O holandes discute um projeto um pouco mais que o americano. O consenso é muito valorizado. A discussão acaba atrasando um pouco o inicio dos projetos mas, quando se inicia e se implanta, se faz de uma forma correta.
Agora, estou na Espanha, onde acho que a desorganização é maior que no Brasil. Respeito ao horário é uma fantansia aqui na Espanha. E o agravante aqui é que o espanhol fala demais. É prolixo, se repete, não vai ao ponto. Uma coisa que pode ser falada ou explica em 2 minutos é feita em 10 minutos. Portanto, as reuniões não começam e nunca acabam no horário.
Portanto, analise bem, se quer ter clientes espanhóis.
Jose, eu concordo que os elementos culturais que você cita estão na origem do problema que estamos discutindo.
Pelo jeito eu não iria me adaptar nunca na Espanha! Um ótimo país para visitar, como Brasil, mas pelo que você descreve, muito complicado para trabalhar também.