
(Foto: ViaMoi)
No Brasil, ainda pequena, eu ouvia com frequência os adultos mencionarem a estória do pato, que “anda, nada e voa, porém anda mal, nada mal e voa mal”, enquanto que outros bichos fazem muito bem a sua especialidade: o tigre corre, a águia voa, o peixe nada.
Nos Estados Unidos, a expressão “a jack of all trades but master of none” é usada para identificar pessoas (ou empresas) que tentam ser tudo para todos, e acabam não se destacando em nenhuma área. No ramo do desenvolvimento de software, a especialização (individual e organizacional) é esperada. Dificilmente uma empresa de outsourcing que diga ser especializada em “desenvolvimento e manutenção de aplicativos customizados” vai impressionar um potencial cliente da mesma forma que uma que se apresenta como “especialista em desenvolvimento .NET”, ou “expert em aplicativos Java para desktop”, com dezenas de projetos realizados especificamente naquela tecnologia.
Isso se torna um problema para empresas de software brasileiras tentando entrar no mercado americano. É comum ver-se empresas com excelente capacidade técnica, experientes em desenvolvimento de aplicativos similares ao desejado por um potencial cliente, mas que pela ausência de uma imagem especializada, acabam não gerando o mesmo grau de confiança de uma empresa menos experiente, mas acostumada a vender serviços para um nicho específico de mercado.
O alto volume de negócios que ocorre mesmo em pequenos nichos torna muito mais fácil para empresas atuando no mercado americano especializar-se numa única área: desenvolvimento de portais financeiros, shopping carts, etc. Em países como o Brasil, é preciso diversificar o portfólio de produtos para se alcançar o mesmo volume de clientes, uma situação que traz vantagens e desvantagens:
- no lado positivo, uma empresa acostumada a lidar com diferentes mercados, problemas de negócio e tecnologias é muito mais capaz de se adaptar a novas realidades e de reaproveitar os conhecimentos adquiridos num tipo de projeto em outras iniciativas;
- no lado negativo, uma empresa sem uma especialidade claramente definida compete em desvantagem em ambientes em que existem “niche players” capazes de oferecer uma grande lista de projetos executados exatamente na mesma área que o cliente procura.
Empresas brasileiras de desenvolvimento de software, ao iniciar seu processo de globalização, precisam estar atentas a essas diferenças de percepção. A ausência de especialização, que no Brasil pode ser vista como um sinônimo de flexibilidade e de competência para atuar em diferentes áreas, corre o risco de ser entendida como falta de foco e de pessoal altamente treinado para resolver um problema específico de negócio.

Acho que o mercado brasileiro está aprendendo rapidamente a respeitar a verdadeira especialização e a questionar a flexibilidade excessiva.
O ideal é escolher um foco e completar a sua oferta através de uma rede de parceiros.
Flexibilidade e parceria são palavras que foram distorcidas ao longo do tempo. Vale explorar mais o assunto.
Espero que você esteja certo, Fernando! Será uma boa notícia ver empresas chegando nos Estados Unidos para vender serviços de uma forma mais especializada, e consequentemente com mais credibilidade.
“Flexibilidade e parceria são palavras que foram distorcidas ao longo do tempo. Vale explorar mais o assunto.”
Concordo, e sei que muitos engenheiros no Brasil que reclamam do uso indevido do termo “parceria” por empresas de consultoria (normalmente multinacionais) quando é conveniente evitar o conceito de cliente-provedor em proveito próprio…
Obrigada pelo comentário.
Ola Adriana, a sua observaçao é muito interessante. A flexibilidade é um traço cultural do Brasileiro; nos nos orgulhamos da nossa capacidade de encarar qualquer desafio e de criar soluçoes “on the fly”. Pessoalmente eu sempre tentei evitar a super especialisaçao mas eu sinto que o mercado de TI privilegia cada vez mais a especialisaçao, embora também valorize (e demande) uma certa flexibilidade (quando lhes convem). Sera um sinal de “maturidade”…ou uma consequencia do outsourcing Eu acredito que a especialisaçao é necessaria, principalmente na area tecnica, mas meus clientes frequentemente encontram problemas organisacionais devido a falta de gerentes que consigam entender o que se passa além do universo tecnico em que vivem.
Oi, Luiz,
Concordo com você, super especialização não é o caminho, porque a pessoa acaba achando que a solução dela se aplica a tudo (a famosa frase do Mark Twain, “To a man with a hammer, everything looks like a nail.” Especialização é importante para permitir um aprofundamento do conhecimento numa área, mas o excesso dela acaba limitando muito a capacidade de resolver problemas num mundo tão variável como o nosso.
Obrigada pelo comentário!